terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Side story "Depois"parte 7

Wow, mas isso foi mesmo uma maratona de side-stories! Hehe... Isto é basicamente o que escrevi até agora. Talvez eu continue, talvez não. Se continuar, é provável que mude de foco, mas foi bem divertido fazer isso... espero que estejam gostando também!

Leia a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e sexta parte também =)




Seis meses depois

Quando me dei conta, já estava morando na casa do Diego, mas ele quis oficializar me pedindo pra ficar, e eu aceitei com a condição de que pudesse pagar uma parte do aluguel. Um tempo depois, arranjei um emprego na escolinha de teatro que a antiga professora do colégio tinha aberto. Ela disse que era ótimo ter uma “atriz bem sucedida na europa” como professora, mas é claro que eu não era nada daquilo. De qualquer forma, era bom trabalhar com crianças porque elas não eram tão hipócritas quanto as outras pessoas, e além disso, eu aprendi mais lá do que em todos os anos de curso. Eu estava me encontrando no mundo, e não tentando desesperadamente me encaixar.

O meu pai estava muito melhor e a resposta dos médicos era animadora. O câncer havia diminuido bastante e ele havia ganhado mais tempo de vida. Nunca se falava em cura, mas tudo bem, porque não existe cura para a morte de qualquer forma.

As coisas começaram a mudar quando recebi uma carta da minha antiga roomate, dizendo que estava saindo do apartamento, o que queria dizer que eu teria que pagar todo o aluguel sozinha, bem, meu pai teria que fazer isso, e ele já estava pagando por uma coisa que eu nem estava usando há meses. Pela primeira vez, pensei que deveria voltar, pelo menos para resolver estas questões pendentes.

Pensei por alguns dias qual seria a melhor forma de contar, mas cheguei a conclusão que a verdade deveria ser dita assim como se tira um band-aid. Então, quando eu disse que estava pensando em voltar, o Diego não perguntou porque ou por quanto tempo, apenas disse que “tudo bem”. Aquilo me deixou um pouco incomodada. Mas quando ele parou de falar comigo, isso me incomodou ainda mais.

-Por que você não diz o que pensa? Sei lá, você está bravo porque eu disse que iria voltar pra Londres?

-Eu não estou bravo.

-Então o que é? É difícil viver com seu silêncio.

-Não estou silencioso, eu apenas não tenho nada pra dizer.

-Nada? - Insisti.

-Nope - ele respondeu de um jeito irritantemente debochado.

Mas eu estava começando a ficar com raiva.

-Por que você disse todas aquelas coisas pra mim no dia da festa? Por que tudo aquilo e por que tão tarde? Eu estava magoada, e fodida pra caralho, mas mesmo assim quis dar uma chance pra… isso! Sei lá, não sei de mais nada.

-Eu disse o que eu disse e não posso voltar e apagar tudo. É assim que as coisas são.

-Você me pediu pra ficar na sua casa, puta que pariu!

-O que você quer que eu diga? - ele se alterou - Que eu quero que você fique? Você sabe que eu não faria isso, eu disse isso naquele mesmo dia. Então não tente me testar ou seja lá o que é isto que está fazendo. Apenas vá, e faça o que tem que fazer, e volte, se achar que deve. Mas eu não posso prometer que estarei aqui até lá.

Eu sabia com quem estava me metendo, mas aquelas palavras doíam pra caralho. Porque ele havia me pegado num momento de fragilidade e só agora eu estava me recuperando. Ele estava certo, eu não podia pedir a ele que me esperasse, assim como eu não poderia dizer quando ou se voltaria. Todas as variáveis do nosso relacionamento estavam dando as caras, e vou te dizer, não eram nada fáceis.

-Vem cá - ele disse, estendendo o braço - desculpa, tudo bem. Vamos resolver isso depois.

-Eu ainda tô brava.

A discussão valeu apenas pelo sexo de reconciliação, que costumava ser bem mais radical que o normal. É como se a gente quisesse provocar dor e ao mesmo tempo sentir dor, porque a dor física era nosso melhor remédio. Eu não teria pensado da mesma forma duas semanas depois, quando acordei passando muito mal.

-Eu sabia que não devia ter comido aquele sushi! - eu gritei entre um vômito e outro.

Tomei um remédio para enjoo, o que não adiantou nada porque horas depois estava de volta ao banheiro. Não sabia que um sushi poderia fazer tanto estrago, quando finalmente me lembrei do detalhe mais importante daquela empreitada. Minha mente simplesmente fez tilt, e tudo fez sentido. Não, não, não. Eu sai do banheiro de costas, olhando aquela bacia cheia de vômito, as mãos na cabeça, quando Diego apareceu, meio preocupado, perguntando:

-Que foi? Você tá bem?

Ele caminhou até o banheiro e viu todo aquele vômito, e quase perguntou alguma coisa, então ele percebeu a minha expressão de desespero e também deve ter tido algum tilt, porque apenas disse: “Vou na farmácia pra você”.

Ele trouxe uns três testes de gravidez diferentes, e todos - claro - deram positivo. Eu apenas continuava repetindo mentalmente não, não, não como se isso pudesse reverter a situação. Eu tava na maior encrenca do universo e não podia acreditar.

-Eu achei que fosse por causa do nervosismo, por causa da viagem, sabe… isso já aconteceu comigo antes, então não me preocupei, mas aí lembrei que já faz mais de duas semanas… Ai-meu-Deus-eu-to-muito-fodida.

Diego sentou na privada e começou a roer as unhas, pensativo. Então ele olhou pra mim, e depois voltou a roer as unhas.

-Quão fodida está a Juno? Muito fodida! - eu comecei a cantarolar pra espantar um ataque cardíaco eminente.

Então o Diego levantou e me puxou pelos braços até o quarto, me jogando na cama logo em seguida. Ele arrancou a camisa e pulou em cima de mim, e começou a me beijar loucamente. Eu não sabia se estava entendendo então parei por um segundo:

-Pera, o que a gente tá fazendo?

-Eu não sei, isso importa agora?

Eu fiz que não com a cabeça, afinal aquela não era a melhor hora para se pensar racionalmente, e umas boas doses de endorfina seriam bem-vindas. Tentei fingir que nada daquilo estava acontecendo, mas no dia seguinte vi os palitos com sinalzinho de "mais" jogados no lixo e meu estômago revirou. Era tão sério quanto poderia ser, e eu estava menos dez porcento preparada.

Minha viagem estava marcada para ali alguns dias e eu decidi ir mesmo assim, sob o pretexto de que usaria esse tempo para pensar no que fazer. Isso incluía decidir sobre o aborto, porque eu definitivamente preferia fazer isso na Europa, caso fosse minha decisão.

O Diego me abraçou e disse “se cuida”, mas eu podia ver a preocupação na sua voz. A culpa não era dele, mas acho que ele se sentia culpado. Eu também era uma idiota, porque às vezes a vida parecia tão fácil que a gente se descuidava. Eu tinha vinte e três anos e estava grávida, e nem ao menos tive coragem de contar a minha mãe. Fui para Londres chorando praticamente o vôo inteiro, como se ainda fosse uma criança que se perdeu dos pais.

Chegando no flat, eu tive um surto psicótico e acabei jogando fora boa parte das minhas tralhas. Arrumei o apartamento inteiro e até mesmo organizei os filmes e Cds em ordem alfabética. Eu estava ficando maluca só de imaginar um alien crescendo na minha barriga a todo instante, a ideia era aterradora.

Cruzei com alguns amigos pela rua, tomamos chá juntos, e eu tentei parecer o mais normal possível. Eu disse que estava namorando e que talvez voltasse para o Brasil. Eles queriam que eu ficasse, mas eles não tinham uma decisão de proporções estratosféricas pra tomar, então eu os desculpava.

No décimo dia em Londres eu estava me sentindo tão deprimida que deu pena de mim mesma. Aquela tinha sido uma péssima decisão, de ir para um país distante completamente sozinha, eu tinha certeza, e foi quando a campainha tocou. Eu continuei olhando e olhando para a pessoa do outro lado da porta, sem nenhuma reação.

-Tô atrasado - ele disse, sorrindo e jogando a mala no chão.

-Mas… por que? - eu perguntei, ainda confusa.

-Eu não sei, tive o súbito impulso que deveria vir.

Eu não podia parar de olhar pra ele, é verdade. Os cabelos castanhos, presos pelo óculos de sol no topo da cabeça. Mesmo que não tocasse mais numa banda, ele jamais perderia aquele ar meio rebelde, meio rock'n'roll. Isso soava meio brega, mas eu gostava. Eu gostava de olhar pra ele, pra seu rosto meio delicado e meio anguloso.

-Vai me convidar pra entrar? - ele perguntou elevando uma sobrancelha.

Eu abri espaço para ele passar pela porta, ele caminhou até a sala e deixou o óculos em cima da mesinha, assim como o celular que tirou do bolso.

-Então, como estão as coisas? - ele perguntou sentando no sofá.

-É… bem… - respondi um tempo depois.

Ele sorriu, e eu sabia que aquele sorriso queria dizer alguma coisa. Ele sabia me ler tão bem que me dava raiva. Eu caminhei até ele, abri a boca, mas não consegui dizer nada. Então apenas fiquei alí parada, sem saber o que pensar. Porque ele tinha vindo todo o caminho até Londres? Eu queria saber mais que tudo, e não queria respostas evasivas.

-Ainda tendo aqueles enjôos chatos… - eu disse, finalmente.

Ele ainda estava sentado mas me puxou pelo braço, me abraçando pela cintura. Eu envolvi sua cabeça, acariciando seus cabelos, que eram incrivelmente macios. Enquanto isso, ele passava as mãos sobre as minhas costas, pela minha cintura, pelo meu quadril, e chegando nas pernas... devo dizer que senti falta do contato. Fechei os olhos e apenas senti enquanto ele me tocava. O que eu podia fazer se era uma pessoa tão… física.

Então ele parou, e ficou me observando enquanto me contorcia. Ele deu aquele seu sorriso cínico, então eu o empurrei pelo peito e sentei sobre ele. Ele enfiou as mãos por debaixo do meu vestido.

-Eu acho melhor aproveitar enquanto você não está gorda e extremamente grávida.

Eu dei um soco em seu peito, ele gritou e fez uma cara de sofrimento.

-Hey! Isso dói. Você devia saber melhor a força que tem…

-Eu sinto falta disso - confessei.

-Do que?

-Você sabe, bater nas pessoas.

-Você sempre pode fazer aulas de boxe.

-Não - eu disse, balançando a cabeça negativamente - eu quero dizer, bater nas pessoas de verdade.

-Você me assusta às vezes.

Talvez ele ter vindo tenha sido tipo uma segunda confissão de amor. Era isso o que ele queria dizer? Pra dizer a verdade, eu estava cansada de tentar fugir, de viver uma vida solitária, cheia de casos superficiais e pessoas estranhas na minha cama. Cheia de mágoas. Eu fiz isso por um tempo porque achava que deveria, que me faria feliz, que precisava desesperadamente ser livre. Mas eu queria ser assim tão livre quanto Diego acreditava? Talvez eu só quisesse que pelo menos alguma coisa desse certo. Então me perdi naquele azul infinito… eu amava aquele cara na minha frente? O que era o amor? Mas quer saber, era ele que estava alí e mais ninguém. E caralho, nada daquilo fazia sentido. Um namorado de adolescência. Alguém que nunca realmente conheci. Alguém que olhava pra mim como se eu já fosse completamente importante. E quando foi que ele se tornou tão importante pra mim…?

-Diego… - eu comecei, sem pensar muito - você quer ser o pai do meu filho?

Ele apenas sorriu seu sorriso sexy e disse "estava esperando você perguntar".

-Isso quer dizer que…eu vou ser uma mãe? Eu vou ser uma mãe? Meu Deus, eu amaldiçoei minha mãe por anos e agora vou ser uma delas… Isso é terrível.

De repente, eu já tinha tomado minha decisão. Talvez eu já tivesse decidido desde o começo, por isso estava sofrendo, porque este era o caminho mais tortuoso, mais longo e difícil. Era difícil aceitar, e dava um nó na garganta de imaginar, mas nós continuamos. Nós nos tornamos aquele tipo de pessoa, mas quer saber, eu não me importava nem um pouco.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 6

Aqui a side-story muda um pouco de direção, mas eu queria explicar como cheguei na última parte... espero que gostem ;)

Leia a primeira, segunda, terceira, quarta e quinta parte também =)



Sete anos antes


-Eu larguei a faculdade.

-O que? - Perguntou a mamãe.

-Eu larguei a faculdade. Tentei o máximo que pude, mas agora simplesmente não dá mais.

-Filha, mas por que? Não faltava pouco para se formar?

-Sei lá, agora não importa mais - percebi que a resposta não seria o suficiente, então continuei - Faltei a muitas aulas, peguei muitas dependências, então eu teria no mínimo mais dois anos para terminar… Eu sinto que aquilo tudo não me acrescenta em nada, seria perda de tempo.

-Bem… querida… - ela começou - não sei o que te dizer, achei que era isso o que você queria.

-Eu sei, eu também achei. Acho que… me enganei.

-Tudo bem… quer dizer, você já falou com seu pai?

-Estava esperando ele sair da sessão.

-E o Louis?

-O que?

-O Louis? Você não estava namorando com ele? Até me mandou algumas fotos.

-Ah… - eu tinha me esquecido daquele pequeno detalhe - a gente terminou.

Mamãe piscou por alguns momentos, confusa.

-Ah, é mesmo? Ele me parecia um bom rapaz.

-Ele era decente - respondi - mas acho que… ele queria outras coisas. Aliás, eu tenho certeza disso - eu disse, me lembrando do seu pedido de casamento irremediavelmente romântico. Eu simplesmente disse que não. O que mais eu poderia fazer? Aquele tipo de vida não me atraía nem um pouco. Além do mais, era bom saber que não estávamos na mesma sintonia.

Mais tarde, quando o papai saiu da sessão de quimio, ele estava tão fraco e doente, e vomitava a cada cinco minutos, e eu lá tentando explicar meus dramas com a faculdade e o que me levou a aquela decisão. Fiquei me sentindo muito mal, e fútil. Ele estava lá lutando pela sua vida, e eu caminhando para minha auto-destruição.

-Querida, podemos conversar mais tarde? Estou realmente cansado. - ele pediu, a voz tão perdida.

-Sim… Claro! Me desculpe, não deveria te encher com essas coisas agora.

-Não… prometo que ouvirei tudo mais tarde. Só preciso… fechar um pouco… os olhos.

E então adormeceu na sua poltrona favorita. Mesmo que minha tia Ruth estivesse lá para cuidar dele, eu via como ele estava sozinho naquela casa vazia.

Ele estava melhorando, ou pelo menos era o que o médico dizia. Esta quimio era bem mais forte que a outra, mas ao mesmo tempo, muito mais devastadora para o corpo. Ele estava num estado completamente debilitado, mal podia levantar para tomar banho. A parte boa é que todos estavam confiantes que diminuiria o câncer em grandes proporções. Era esperar para ver.

Aproveitei que tinha acabado de voltar para o Brasil para visitar alguns amigos. Suzana tinha acabado de se formar em veterinária e trabalhava numa clínica no centro da cidade. Ela estava feliz, e descobri que estava saindo com o Pedro.

-O Pedro? Nossa… como isso aconteceu?

-Ah, não sei, a gente estudava no mesmo campus e acabava se vendo muito. Nos encontramos em algumas festas e tal…

-Entendi… - eu disse, sorrindo de forma maliciosa - estou tãaaooo feliz! Não sei como não pensei nisso antes, vocês são bem parecidos.

Suzana ficou vermelha.

-É, temos várias coisas em comum e tal…

-Ai, ai, é o amorrrr… - brinquei.

-Ai, meu! Para com isso - ela disse dando um tapinha nas minhas costas - Falando nisso, você ficou sabendo? Ele saiu do Mad House no ano passado.

-O que? - a notícia me chocou - Como assim? Saiu por que?

-Bom, pelo que ele me disse, e ele não disse muito, assunto delicado sabe, foi por causa de algumas desavenças com o Jay, e o Diego já tinha saído alguns meses antes e eles estavam procurando um novo baixista pra banda. Foi algo assim…

-Caramba…

-Foi meio tenso, foi uma fase negra pro Pedro.

-Imagino.

-Pensei que já soubesse… O Jay não disse nada?

-Não… pra dizer a verdade, falei muito pouco com ele nos últimos tempos. Ele tem morado sabe-se lá onde, com alguns amigos.

-Eu acho que o Mad House acabou mesmo.

Foi quando Suzana disse aquilo que me dei conta. Todos aqueles sonhos antigos tinham acabado de verdade. O Mad House não existia mais e cada um tinha seguido seu caminho. Era tão estranho…

Estava pra anoitecer, e eu não tinha nenhum plano para aquela noite quando decidi refazer um caminho que costumava fazer muito há seis anos atrás. Parei diante da casa dele, que estava com todas as luzes apagadas. Fiquei imaginando se ele ainda morava lá, ou o que tinha feito da sua vida. Fiquei lá por aproximadamente quinze minutos antes de Amanda aparecer no portão.

-Puta merda, você quase me matou de susto, achei que era algum trombadinha - ela disse com a mão no peito. Pois é, algumas coisas não mudam, mesmo depois de anos as pessoas ainda me confundiam - Juno, né?

-É sim.

-Ele se mudou, foi morar com nosso pai em São Paulo.

-Ah…

Então ele estava lá tentando conquistar a cidade grande.

-Você… hum, quer entrar?

-Não, já estou indo nessa… eu só pensei que… bom, deixa pra lá. Até mais.

Dei meia volta o mais rápido que pude, afinal, o que eu estava querendo? Ele agora estava bem longe, vivendo a vida dele, e era isso o que eu estava tentando fazer também. Eu tinha a estranha mania de ir atrás dele mesmo sabendo que não iria encontrar nada. Tudo o que eu tinha era um beijo de despedida e a promessa de um futuro inexistente.

Decidi entrar no grupo do facebook dos alunos e ex-alunos do colégio para ver se tinha alguma coisa rolando na cidade aquele dia. Eu definitivamente não iria para casa ficar alimentando as ideias terríveis que eu tinha sobre a vida naquele momento. Acabei encontrando um post sobre uma festa aberta na casa de alguém. Mandei uma mensagem para Gabriela e combinamos de nos encontrar lá.

-Porra, Juno, você poderia ter avisado que estava vindo! Eu teria combinado os rolês mais épicos do mundo.

-É, foi mal, eu cheguei ontem a noite, e meio que decidi vir de ultima hora.
-Bom, a festa na casa do Brunão não vai ser lá aquelas coisas, sabe, vai estar cheia de hipsters.

Eu dei de ombros, qualquer festa era melhor que nenhuma.

Bom, ou talvez eu tivesse subestimado meu humor para festas naquela noite. Depois de algumas bebidas, o efeito foi totalmente o contrário, e eu comecei a ficar totalmente deprê. Eu reconheci muita gente, algumas até vieram falar comigo, mas não tinha muito o que dizer. Em pouco tempo eu descobri o que cada um deles fazia, em que curso estavam, onde trabalhavam, e nada daquilo realmente importava.

Comecei a ficar realmente tonta então fui para o jardim. Senti um súbito cheiro de cigarro, um cheiro doce e diferente, e eu só conhecia uma pessoa que fumava aquela marca.

-Hey, você. Não deveria beber tanto assim, ou coisas ruins podem acontecer - eu reconheci aquela voz.

Me virei.

-Ai-meu-Deus-que-que-você-fez-com-o-seu-cabelo - eu soltei sem pausa entre as palavras.

-Cortei - Diego respondeu.

-EU VI!!! - talvez estava um pouco alta demais, pois estava gritando -Isso não é justo, eu só te namorei por causa do seu cabelo. Haha.

-Que bom, porque a gente não namora mais.

Eu devo ter feito alguma careta.

-Hey - eu disse - você lembra da ultima coisa que me disse? Você disse que eu deveria ter ficado um pouco triste, eu pareço triste o suficiente pra você? - então eu apontei para a minha camisa manchada de alguma bebida - porra, derrubaram isso em mim.

-Não, mas você me parece um pouco deprimente.

-Ah, cala a boca.

-E essa não foi a ultima coisa que eu disse.

-Que seja - eu disse me jogando no chão e sentando. Talvez eu fosse vomitar, não sei.
Diego se aproximou e me passou o cigarro, que eu traguei e tossi um pouco. Devolvi pra ele.

-Eu fui demitida do meu emprego e larguei a faculdade, agora to aqui de volta pra onde tudo começou, então desculpa se eu pareço um pouco deprimente.

Ele riu e se sentou do meu lado.

-Você sempre vai voltar.

-O que isso quer dizer? - eu realmente não sabia, mas poderia imaginar diversos sentidos pra ela. Sentidos da qual eu não me orgulharia - Aliás, porque você ficou? Não existe nada aqui pra nós...

-Esta é uma boa pergunta - ele virou seus olhos incrivelmente azuis na minha direção e ficou me fitando de forma perturbadora - talvez devessemos discuti-la qualquer dia desses.

-Não, por favor - respondi. Minha cabeça girava muito.

Eu decidi me deitar em seu colo, primeiro porque precisava deitar, segundo porque estava carente, terceiro, porque foda-se.

-Por que você saiu do Mad House? - perguntei. Talvez conversar me mantesse acordada.

-Eu não queria mais aquilo.

-Ah… - tive a impressão de que ele também não falaria muito sobre aquele assunto - Cara, estou tão cansada…

-Eu sei.

-Cara, você gostava de mim? - Eu definitivamente não estava mais pensando.

Ele apenas deu um meio sorriso de deboche seguido de um "feh" habitual.

-Por que… você me deixou ir embora? Eu era só uma criança estúpida, talvez… se você tivesse dito que não, eu nunca teria ido - eu continuei.

-Não importa agora, Juninho.

-É sério, eu pensei muito sobre isso.

-Por que? Isso foi há séculos atrás… - ele sorria tranquilamente, como se não houvesse mágoas.

-Eu só queria entender, sabe, porque foi tão difícil deixar o Daniel ir embora, foi como dar um tiro no peito toda manhã, morrer, e ter que levantar pra tomar outro tiro.

-A gente está falando sobre ele?

-Não! - eu gritei, me apoiando com os cotovelos. De repente, nossos rostos estavam muito próximos, e eu pude ver a seriedade no rosto dele - Eu só…

Então vomitei. Bem em cima de sua calça jeans. Só me lembro dele me levando até o banheiro e segurando meu cabelo enquanto eu vomitava estrondosamente na privada, depois segurou meu rosto com as duas mãos dando uns tapinhas nas bochechas. Acho que eu estava desmaiando. "Fica comigo!" ele dizia. Ai meu Deus, eu me sinto tão mal. "Fica acordada!". Acho que vou morrer. Outro tapinha. Nada. Um jato de água no rosto e eu despertei.

-Deus, me sinto como uma adolescente imbecil que tomou seu primeiro porre - eu disse.

Ele riu, então minha missão estava cumprida. Ele encostou na parede parecendo aliviado.

-Você quer saber porque te deixei ir embora? Porque é assim que o meu amor funciona, eu não queria que você pertencesse a mim, eu queria que fosse livre. Foi por causa disso que me apaixonei por você de qualquer forma… porque você era livre.

Eu nunca tinha ouvido a palavra "amor" e "se apaixonar" sendo usadas por Diego para definir algum sentimento seu, muito menos em uma única frase. Eu estava tão confusa.

-Isso é uma piada? Você não deveria estar contando piadas pra pessoas no meu estado! Meu braço tá dormente, okay?! Eu acho que to morrendo… você não devia ficar fazendo… essas coisas… é sério!

-Não estou brincando…

Ele sorriu, mas a aquela altura não sabia mais definir se era um sorriso de desprezo, de pena, ou sei lá do que.

-Vamos, eu vou te levar pra casa - ele disse, me pegando pelo braço e passando-o sobre seus ombros.

Ele me colocou dentro do taxi e entrou comigo. Alguns minutos depois já estávamos na frente da casa da minha mãe. Ele tocou a campainha.

-Não… não tem ninguém em casa. É dia de jantar fora com o Tsui… - eu sussurrei, porque era o máximo que podia fazer.

-Onde estão suas chaves? - ele perguntou.

-...bolso… da calça...

Ele checou os bolsos da minha calça e tirou o molho de chaves, girou na fechadura, e a esta altura, eu estava debruçada sobre ele, então ele apenas me colocou no colo e me levou pra dentro. Aquela cena me parecia familiar. Eu quis chorar só de lembrar que o Daniel já tinha feito aquilo comigo, e passado a noite ao meu lado. Não, não era justo.

-Pare de chorar, a mamãe vai chegar em casa logo - ele disse, rindo.

-Eu devo ser uma eterna piada pra você, né?

-É, sim… - ele respondeu sem um pingo de remorso.

-Então é verdade? Você me amava mesmo?

-Amava.

-No pretérito imperfeito?

-No pretérito imperfeito. - ele confirmou.

-Por que nunca me disse antes?

-Não sei, porque este sou eu - ele disse, respirando fundo - É melhor eu ir nessa.

-Obrigada. Você sabe. Eu poderia ter morrido. Estou tão bêbada.

-Está. Você vai ficar bem? - Ele perguntou, eu fiz que sim com a cabeça.

Ele se levantou e foi até a porta, então parou um pouco antes de fechar a porta.

-Não, eu menti, não no pretérito imperfeito.

E foi embora. Eu queria deixar ele ir embora? Ouvi seus passos quando descia as escandalosas escadas de madeira. Eu o deixaria ir embora? Ele alcançara o hall de entrada e agora girava a maçaneta. Então foi como uma descarga de adrenalina, eu pulei da cama e desci as escadas correndo.

-Diego, espere! - eu gritei, e ele se virou - Eu também menti… não vai ficar tudo bem.

Ele apenas sorriu e disse:

-Eu já sabia.

Ficamos nos encarando por algum tempo, até que ele disse:

-Então, o que quer fazer?

-Não sei, eu…

-Quer ir pra minha casa?

-Okay.

Quando chegamos, descobri que, bem, ele tinha saído da casa da mãe e agora dividia uma casa com um tal de Jonas (ele não estava em casa). O lugar era bem arrumado por ser habitado por dois homens, talvez mais arrumado que o meu apê.

-Quer tomar um banho? - ele perguntou. Eu fiz que sim com a cabeça, então ele me indicou o banheiro.

Tentei tirar a roupa começando pela camiseta, mas algo deu muito errado e eu fiquei entalada. Diego percebeu e me segurou pelos braços, puxando a camiseta calmamente para cima. Ele não disse nada, apenas continuou a tirar a minha roupa, o que foi um pouco erótico, só que ele não fez nada. Apenas me colocou dentro do box e ligou o chuveiro. Depois trouxe uma toalha limpa e algumas roupas. Bem, não era como se ele nunca tivesse me visto antes. Só que eu não sabia o que ele estava pensando e meus pensamentos corriam soltos…

Quando saí, ele já tinha trocado as calças vomitadas e estava deitado na cama, lendo alguma revista, acho.

-Você se importa se eu deitar? - perguntei, só em caso. Ele apontou para a cama como se dissesse “seja bem vinda” e eu deitei do lado dele de barriga pra cima - e eu acho que não consigo fazer nada além disso hoje.

-Eu não costumo me aproveitar de garotas completamente debilitadas.

-É mesmo? Você não parecia se importar, há alguns anos atrás… - eu disse, mas dormi imediatamente depois disso.

Quando acordei, na manhã seguinte - a cabeça latejando,é claro - Diego não estava, mas tinha deixado o café da manhã pronto em cima da mesa. Cereal com algumas frutas, iogurte, café com leite… “Saudável”, pensei. Dei uma olhada na casa. Não era pequena nem grande, e a decoração era simples. No canto da sala, um case de guitarra, ou baixo, muito provavelmente. Em cima da mesinha de centro, um notebook aberto com algumas pilhas de papéis e livros, muitos livros na estante. Ele não me parecia o tipo de cara que gostava de estudar, mas talvez esta fosse uma das coisas que não sabia sobre ele.

Estava terminando o café da manhã quando ele chegou com uma sacola da farmácia, que me entregou “Aspirina” ele disse. Eu agradeci. Dei uma bela reparada: ele vestia calça de moletom e chinelo. Acho que nunca tinha visto ele tão a vontade.

-Então, o que você faz da vida agora que não toca mais na banda? - perguntei.

-Eu traduzo livros, basicamente - isso explicava a pilha de papéis... Manuscritos - Eu trabalho de casa, o que é ótimo, porque posso me dedicar a outras coisas também.

-Tipo?

-Tipo música - ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo - e você?

-Atriz numa companhia de teatro de Londres… era pequeno… e houve “corte de gastos” o que explica meu status atual de “desempregada”. Eu estava odiando tudo aquilo, de qualquer forma - eu disse colocando a louça na pia e lavando o que tinha acabado de usar.

Quando terminei, bati as mãos em sinal de “trabalho cumprido” e perguntei:

-Então, o que temos pra hoje?

-Quer dar uma volta?

Fiz que sim com a cabeça, vestimos os tênis e fomos para a garagem. Percebi que tinha uma moto alí que não me lembrava de ter visto no dia anterior.

-Essa moto… tava aqui ontem?

-Não, eu fui buscar na casa do Brunão hoje de manhã… Não podia arriscar te levar de moto pra casa ontem naquele seu estado deplorável.

-Oh, obrigado pela parte que me toca.

Ele me entregou o capacete e subimos na moto. Fazia um bom tempo que não me sentia, digamos, tão confortável. Estava usando as roupas de Diego, e não me importava. Estava cagando para o que as pessoas achavam. Existia algo naquela cidade que tinha me incomodado por anos a fio, e eu sabia que eram aqueles olhares de estranheza das pessoas, e agora, eu não me importava mais. Me senti livre.

-Não sabia que era tão bom no inglês - eu comentei, tentando puxar assunto. Estávamos andando pelo centro da cidade e tomando um sorvete bem gordo - Eu sofri muito para me comunicar em Londres nos primeiros meses. Quase ninguém me entendia, nem entendia ninguém, nem mesmo o Louis, que além de tudo, era francês. A gente não entendia o que o outro dizia, mas pelo menos, pra compensar, a gente transava muito. Só ficou estranho quando ele me pediu em casamento, então percebi que a comunicação estava bem lesada mesmo.

O Diego ficou rindo da minha verborragia, ou rindo apenas de mim mesmo.

-Então você namorou um cara francês, quão clichê isso pode ser…

-É, sei lá… esses franceses tem alguma coisa que eu não sei explicar… haha.

-Eu me tornei bom em inglês porque queria entender as letras das minhas bandas preferidas.

-Faz sentido.

Era uma tarde de domingo agradável e eu comecei a me preocupar com o que faria da minha segunda-feira, o que não era bom, porque eu já não tinha mais um plano do que fazer da minha vida no geral. Voltamos para casa e eu conheci o Jonas, que era um cara bem legal apesar de super tímido. Ele foi para o quarto e eu jogava video-game enquanto Diego trabalhava um pouco em seu notebook.

-Está entendiada? - ele perguntou e notei que me observava.

-Não! Só estou, hum, preocupada… Não quero te atrapalhar nem nada.

-Pode ficar o quanto quiser. Jonas vai ficar feliz em estar perto de uma presença feminina, este deve ser o mais perto que esteve de uma garota em meses.

-Wow - eu respondi - Mas, hum, se você diz, então vou abusar de você mesmo.

Primeiro, não percebi o que tinha feito. Não pensei antes de falar, mas depois notei que talvez, incoscientemente, eu estivesse querendo dizer aquilo com segundas intenções, TALVEZ.

Ele estreitou os olhos e depois fechou o note, dizendo: “Docinho, você pode abusar de mim o quanto quiser”. E eu fiquei lá parada, o jogo rolando na tevê, muitos gritos, e então ouvi um “game over”. Olhei do controle para o Diego, que continuava impassível, me fitando daquele seu jeito genuinamente perturbador. Eu queria fazer aquilo? Eu estava prestes a fazer aquilo? Eu estava preparada? Era só sexo. Mas era só sexo? E quanto a aquela confissão amorosa? Minha cabeça entrou em pane. Ele percebeu e riu.

-Você é tão fácil, eu poderia fazer isso pra sempre.

-Poderia? É, acho que poderia… - eu sussurrei mais pra mim mesma.

-Se te incomoda, posso colocar um colchão pra você aqui na sala.

-Não me incomoda. Sinceramente, queria dormir abraçada com alguém… Não, queria dormir abraçada com você. Mas pode ser que seja pedir demais.

Ele deu de ombros, o que foi o suficiente para mim. Ele arrumou a cama e foi escovar os dentes. Eu tentei me aconchegar o melhor possível antes dele chegar. Então ele deitou e me abraçou na posição “conchinha” e mesmo tendo ouvido falar que era uma péssima posição e tudo mais, foi o que ele fez. E dormiu, ou pelo menos eu pensava que sim. Algumas horas depois, ele disse:

-Está acordada?

-Tô - respondi - Não consigo dormir… tenho pensando muito sobre amanhã e quão perdida estou.

Então eu me virei para ele e ficamos frente a frente.

-Não se preocupe demais.

-Se você diz… - respondi, ainda desesperançosa.

-Apenas… - e ele acariciou meu rosto, colocando meu cabelo atrás da orelha - espere para ver.

-Desde quando você diz esse tipo de coisas… hum, otimistas?

-Eu sou uma pessoa otimista, você não sabia?

-Não é, não.

-Você tem razão. Na verdade eu queria dizer que vai ser uma merda por muito tempo, muito tempo mesmo, e você vai se odiar por ter desistido de tudo, e vai viver uma vida cheia de arrependimentos e remédios pra depressão.

Eu quis rir mas estava um tanto quanto cansada para isso, então apenas sorri. Fiquei parada enquanto ele enrolava meu cabelo em seus dedos, imaginando se ele estava fazendo aquilo para me fazer sentir melhor ou porque ele simplesmente queria ficar comigo.

-Eu… - comecei, criando coragem - isso não deveria ser tão difícil...

Então Diego afastou a mão de mim, como se soubesse sobre o que eu estava pensando. Acho que ele estava tentando me seduzir. Não, eu tinha certeza. E Deus, como eu queria aquilo, talvez nunca tivesse deixado de querer. Eu podia não saber o que sentia, emocionalmente falando, mas eu queria aquilo, então o beijei. E ele me beijou de volta, acariciando as partes do meu corpo que estavam expostas, e depois enfiando a mão por debaixo da camiseta.


Ele me salvou naquele dia da festa. Não porque eu estava quase desmaiando e poderia ter morrido, mas porque ele olhou pra mim. E eu finalmente pude compreender o sentido de todas aquelas coisas. Ele era capaz de me amar e de confiar em mim, de um jeito que eu nem mesmo merecia mas que decidi aceitar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Side story "Depois" parte 5

Deixe-me contar um pouquinho sobre esse capítulo. Eu decidi ousar, decidi imaginar além do que jamais fizera, quer dizer, eu de vez em quando tinha algumas ideias mas nenhuma delas me parecia concreta. Não que esta ideia seja totalmente concreta. Gosto de imaginá-la como um "universo alternativo". Dentro de tantas possibilidades no universo do Vidas, eu escolhi esse para escrever (eu gosto de imaginar outros finais, mas enfim, espero que gostem desse).

Por alguma razão, não foi fácil escrever sobre isso, e o texto acabou ficando longo, mas quer saber, eu curti muito o que eu escrevi, do jeito que escrevi, e acho que fez algum sentido, mesmo que aparentemente não haja. Para aqueles que ficarem um pouco chocados/curiosos: CALMA! Tem continuação, que inclusive já está pronta, só falta postar.

Leia a primeira, segunda, terceira e quarta parte também =)



Doze anos depois

Fazia exatamente sete anos que eu não via o Jay quado ele entrou pela porta do quarto de hospital, o rosto carregado, as olheiras profundas. Ele parecia… mais velho. O que me deixava triste, porque ele sempre fora tão jovem e cheio de vida. Fiquei imaginando o tipo de vida que ele levava para acabar assim.

-Você sabia - eu disse, ainda segurando a mão de nosso pai, que jazia naquela cama, desacordado.

-Eu sabia… - ele respondeu se aproximando. Ele se sentou na cadeira do outro lado da cama, observando aquele homem tão franzino, ou o que havia restado dele.

-Você poderia ter me contado, e eu teria voltado correndo. E agora, eu me pergunto se vou vê-lo acordado mais alguma vez… - eu disse.

-Eu sinto muito.

-Você sente? - eu perguntei, começando a me exaltar - Não importa as diferenças que tivemos nos ultimos anos, ele É meu pai também!

-Eu pensei que…

-Não importa.

-Eu perdi seu número. A mamãe me passou, mas eu perdi o papel.

Eu deveria ter dito o que pensei naquele momento, que ele tinha perdido muito mais do que um mero pedaço de papel, e eu não sabia mais quem era aquela pessoa na minha frente, aquela pessoa que admirei durante toda a minha infância e adolescência. Eu queria que ele brilhasse mais e mais, e que o mundo conhecesse o Mad House. Ele merecia isso. Mas o Mad House terminou, e tudo mudou. Eu fui estudar em Londres, passei três anos no curso de artes cênicas, atuei em algumas peças, e quando percebi, nossos mundos já eram outros…

Fitei aquelas mãos tão enrugadas e a fita que cobria a entrada do catéter. Fiquei imaginando quão aquilo poderia doer, numa pele tão frágil quanto a de meu pai. Ele lutara contra o câncer por doze anos, de quimeoterapia a quimeoterapia, passando por uma fase em que pensamos que estivesse curado, para depois piorar definitivamente. Eu gostaria de ter estado ao seu lado todo o tempo, e eu sabia que não poderia simplesmente culpar Jay por ter sido uma filha mediana. Ele estava ruindo. Meu pai estava desaparecendo diante de meus olhos e isso machuca pra caralho.

Neste momento, uma criança de mais ou menos cinco anos entrou no quarto correndo e então parou em frente de Jay, fitou-o por alguns segundos e então disse:

-Você que é o meu tio Jay?

Ele ficou parado sem reação, a boca semiaberta, talvez ele quisesse dizer alguma coisa mas não sabia o que. Então ele olhou pra mim.

-Você… você teve uma…

-O nome dela é Victoria. Ela tem cinco anos.

-Mas mãe! Eu vou fazer seis no mês que vem! - Victoria protestou, fazendo balançar suas maria-chiquinhas. Ela se aproximou e sentou no meu colo - mãe, abre o sorvete pra mim?

Jay apenas ficou observando enquanto eu abria o pacote do picolé e entregava a ela.

-Quem… é o pai? - Jay perguntou ao mesmo tempo que um homem de seus trinta anos, cabelos castanhos, entrava pela porta carregando um ursinho de pelúcia amarelo.

-Querida, você esqueceu o Robert lá na cantina, se depois vier reclamar que perdeu… - ele parou ao perceber que Jay estava ali - Ah, você.

Jay ficou olhando dele para mim, muito chocado para falar qualquer coisa.

-Sério? - Ele perguntou com um tom de raiva e incredulidade - SÉRIO? Tinha que ser ele?

Diego pegou Victoria no colo e foi até a porta.

-Vou levar a Vic pra fazer um passeio, assim vocês podem, hum, conversar em paz.

Quando Diego saiu, eu percebi que simplesmente muita coisa tinha acontecido nesse meio tempo para poder explicar a Jay. Eu também acharia estranho, eu acharia a coisa mais improvável do universo.

-Eu ouvi dizer que você vai lançar um álbum solo… - tentei mudar de assunto.

-É, sei lá, acho que sim… estamos discutindo isso lá na gravadora, mas há grandes chances que sim, mas cara, o Diego? Vocês não tinham terminado? Você não namorou um cara depois dele e ficou deprimida pra caramba? Não me diga que… - ele estreitou os olhos, pensativo - ele foi lá te consolar?

-Não, Jay, isso foi tipo, muito antes. Eu ainda estava na escola.

Jay passou a mão na cabeça, confuso.

-Então - ele continuou - então sei lá.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Era possível ouvir apenas o gotejar o soro e a respiracão fraca e ofegante de Henrique.

-Ele não vai aguentar muito tempo, não é? - Jay perguntou. Eu apenas fiz que não com a cabeça. Uma lágrima escorreu pelo rosto dele, mas a enxugou com a manga da jaqueta antes que ela caísse - Caramba… Esse velho deu um belo trabalho pra gente e agora tá indo embora sem mais nem menos.

-Doze anos… foram doze anos, não é fácil. Talvez ele esteja dando graças a Deus que está terminando. Mesmo assim, eu gostaria que ele tivesse conhecido a Victoria.

Não muito depois as enfermeiras chegaram dizendo que o horário de visita tinha acabado e que Henrique seria transferido para a UTI. Não pude conter as lágrimas, mas não queria que Vic me visse daquele jeito, eu precisava ser forte, então deixei que Jay fosse na minha frente e apenas esperei no corredor. De lá ainda podia ouvir ele se aproximar de Victoria:

-Olá, acho que não me apresentei. Eu sou Jay, irmão da sua mãe.

-É eu sei - ela respondeu com a sua confiança infantil - Eu sou a Victoria e esse aqui é meu papai.

-É, eu sei - ele disse, rindo - Eu e o seu pai somos… velhos amigos…

-É verdade??? - Vic parecia empolgada.

-É sim, ele nunca contou? A gente tocava na mesma banda, ele era o baixista e eu o guitarrista.

-Noooossa… - adorava quando a Vic falava um "nossa" tão comprido - que legal! Não sabia que o papai era tão legal. E você parece ser muito legal também.

-Somos uma família muito legal, não acha? - Ele disse.

-Mas a mamãe é a mais legal de todas. Ninguém supera, tá?

-Assim você deixa o papai triste, querida… - Diego se fingiu de magoado.

Ouvi ela gritar "Nãoooooo!" e depois devem ter se afastado pois não conseguia mais ouvir o que diziam. Sem querer, eu estava sorrindo, porque apesar de tudo, eu ainda tinha em quem me apoiar. Meu pai estava indo embora, mas eles ficariam. Minha família.

Algum tempo depois, Diego apareceu na porta da cantina e me viu sentada no chão abraçando as próprias pernas. Ele se sentou do meu lado e apoiou minha cabeça em seu ombro.

-Está tudo bem? - Ele perguntou.

-Tá… tá sim - eu respondi, a voz rouca.

Ele sabia que não estava tudo bem, a gente tinha, assim, um código secreto para as coisas. Eu não precisava dizer, ele apenas sabia. Assim como eu sabia o que se passava com ele. E ele sabia muito bem o que era perder um parente…

-A Vic? - perguntei.

-O Jay está cuidando dela. Estão conversando… Sabe, acho que vão se dar muito bem, afinal eles têm a mesma idade mental.

Eu ri. Diego me fazia rir nas horas mais improváveis, e talvez fosse por causa disso que tivesse aprendido a amá-lo também.

-A sua mãe ligou… - ele disse, me tirando dos meus devaneios - perguntou se vamos almoçar com ela amanhã? Ela disse algo sobre o Tsui estar preparando o churrasco...

-Bom… - eu respondi - acho que não temos muito escolha, não?

Ele riu, embalando minhas mãos na mão dele, e me levantando. Ele enxugou meu rosto molhado, me beijou e disse "Vamos".

Talvez, se não fosse por ele, eu não tivesse sobrevivido a nada daquilo. À doença do meu pai, aos meus dramas profissionais, à minha vida em Londres, longe de casa por tanto tempo… talvez ainda estivesse perdida entre os papéis que tomava em cada peça de teatro.

Nunca vi Norah tão feliz quanto naquele dia, reencontrando a neta e tendo seus dois filhos ao seu lado de uma vez só. Tive medo de que ela mimasse Victória demais, mas não importava, porque elas não se dariam àquele luxo tão cedo novamente. Diego ajudava Tsui na churrasqueira e Jay apenas observava.

-Juno, não importa o que diga, não poderei me acostumar com isso tão cedo… não acredito ainda que teve uma filha… ainda mais com ele - ele disse a ultima palavra com certo asco.

-Ah, Jay, por favor, supere. Aconteceu, você quer que eu faça o que?

-Irmãzinha… você cresceu, né?

-Caso ainda tenha alguma dúvida: sim, eu cresci.

Ele fez algum grunhido não-identificável enquanto desenhava com giz de cera.

-Tio! Não é assim, tá tudo errado! - Vic disse, tirando o giz da mão dele.

-Como assim, tudo errado?!! - ele parecia um pouco bravo, mas não mais que Vic, que levava aquela brincadeira muito a sério.

-É assim, olha! Quem nem eu fiz - ela mostrava seu desenho super elaborado de uma casinha com uma família e um carro.

-Mas eu não fiz assim? - ele mostrou seu desenho tosco de bonecos de palito.

-Estou vendo que puxou para a vovó - Norah disse orgulhosa do desenho de Vic, que estufou o peito, confiante.

-Viu só? - Ela disse, mostrando a língua para Jay.

Mais tarde todos já tinham comido o suficiente para uma semana inteira, Vic dormia na sala deitada no peito do Diego. Eles ficavam muito fofos daquele jeito. Tsui estava jogado na poltrona e Norah balançava na rede da varanda. Apenas eu e o Jay estávamos acordados, colocando a louça na lavadeira.

-Me desculpe por não ter falado com você por todo esse tempo - Jay parecia se sentir culpado.

-Fui eu que não falei com você.

Ele riu.

-Ela é ótima… a Vic. Vocês tem feito um ótimo trabalho, eu acho.

-É, acho que sim… - respondi.

-O Diego mudou… foi por causa dela?

-Acho que nós dois mudamos por causa dela, mas o Diego sempre foi assim, era só a gente que não queria enxergar.

-Você acha?

-É, eu e você… a gente sempre estava ocupado demais pra entender.

-Bom, ele até cortou aquele cabelo ridículo de headbanger - Jay disse, e eu percebi que por mais que ele tentasse, não conseguia esconder o ódio que sentia. Do que, eu não sabia - Hey… você já alguma vez se perguntou que diabos está fazendo da sua vida?

-Já… eu me pergunto isso todos os dias - respondi.

-Quer dizer, cara… passei a maior parte do tempo fazendo turnês, ia de um estado a outro, sem parar. Estou ficando velho… e cansado. Talvez, eu não sei…. Agora que vi você, e você com uma filha, sei lá, isso me deixou um pouco preocupado.

-Preocupado por que? Ter filho não é a coisa mais simples do mundo… na verdade, é bem complicado. Eu nunca pensei sobre isso, eu acho que nunca teria parado para pensar, apenas aconteceu. - eu disse, colocando o ultimo prato na lavadeira - Eu também queria o mundo para mim, Jay, assim como você. Isso não é errado.

-Eu acho que… me sinto sozinho. Eu tento não pensar sobre isso, mas é a verdade. Mesmo rodeado de pessoas, amigos, de fãs, mesmo assim me sinto sozinho.

Eu coloquei o braço pelo ombro dele, puxando-o para perto de mim.

-Deixe-me contar um segredinho. Estamos todos pelo menos um pouco sozinhos nesse mundo. Alguns mais, outros menos, mas a verdade é que "estar sozinho" é uma condição natural da qual não devemos ter medo. Temos que usar isso a nosso favor, Jay. As pessoas morrem o tempo todo, olhe para nosso pai… É tudo tão triste e solitário… Mas precisamos nos agarrar as coisas que realmente valem a pena. A Vic vale a pena. O Diego vale a pena. Eu vivo porque, de alguma forma, eu posso fazê-los feliz, e ser feliz no processo. Eu não estou feliz o tempo todo, não faria sentido, mas existem horas que me lembro e me sinto totalmente sortuda por isso.

Jay me fitou por um tempo infinito, como se tentasse absorver todas aquelas palavras. Eu não sabia se ele compreendia, ou se algum dia compreenderia. Existe um momento em que tentamos imaginar nossas vidas diferentes. Eu deveria ter viajado mais. Eu deveria ter feito mais. Eu deveria ter estudado mais, conhecido pessoas importantes, eu poderia ter deixado uma marca mais relevante no mundo. A gente poderia tantas coisas e nos vemos presos nas responsabilidades do dia-a-dia, quase como se fossemos escravos de uma vida fantasma, de algo que não controlamos. Existiram dias em que eu queria morrer. Eu simplesmente não podia suportar. Achei que tudo estivesse perdido, que tudo fosse... pesado demais. Mas eu continuei. Invariavelmente, dias bons chegaram, e também se foram da mesma fora que vieram: sem aviso prévio.

Mas também teve dias em que larguei tudo aquilo que obviamente não me fazia bem. Deixei ir embora, sem um pingo de dó. E foi por causa dessas coisas que eu não poderia me arrepender das escolhas que tinha feito. Eu fiz do jeito que eu queria, mesmo que isso significasse seguir os caminhos mais errados. Eu não poderia culpar mais ninguém além de mim mesma por todas as merdas, e que por pior que estivesse, sempre existiria o fim do poço: e dele eu não poderia passar.

E assim tinha sido minha vida até então: um apanhado de decisões ruins seguidas de boas jogadas. Se eu voltasse seis anos atrás, eu teria escolhido não ter filhos, mas quando olhava para Victoria dormindo tão tranquilamente, um pedaço do céu no inferno que era nossas vidas, eu tinha certeza que ela era a melhor coisa que eu já tinha feito.



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