terça-feira, 29 de outubro de 2013

Eu no programa HQ&CIA

E aqui vai o video da minha participação no programa HQ&CIA, que rolou nesse sábado! =)

Foi muito legal estar lá, eu me senti meio pop... hahaha e todos foram muito queridos. Acho que vocês vão ter uma noção melhor de como tudo aconteceu nesta minha trajetória pelo mundo dos quadrinhos. Assistam e comentem ;D

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Entrevista no programa HQ&CIA

Gente, to ficando tão chique que fui convidada pra participar do programa HQ&CIA, amanhã (sábado) a partir das 15h. O programa rola ao vivo, e dá pra acompanhar do site deles e também acho que dá pra interagir (pelo twitter talvez haha).

Por isso, quem puder, acompanhe! =D

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vidas Imperfeitas publicado pela editora HQM



AAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!

Pera, respira.

É isso mesmo gente: O Vidas vai ser publicado pela editora HQM!!! Pra quem não sabe, a publicação mais famosa deles é o The Walking Dead, mas eles estão publicando também algumas HQs e mangás nacionais. Então, nem sei por onde começar a explicar... O Vidas vai ser lançado provavelmente em novembro, com o selo HQMangá. O negócio estava rolando já fazia um tempo mas eu queria ter mais certeza antes de publicar a notícia, e então hoje eu mandei todos os pdfs bonitinhos pra eles e achei que era a hora de contar (ufa!!! Tava difícil guardar segredo, mas lembram quando eu disse que também curtia criar um suspense? Pois é...)

Enquanto escrevo, meu coração vai dando pulinhos de alegria... Mal consigo pensar direito, pra dizer a verdade. E aos poucos a ficha vai caindo, sabe...

Okay, quem sabe daqui um tempo, quando eu me recuperar, eu seja capaz de explicar melhor como vai ser e tudo mais, mas por enquanto é isso.

Vou alí tomar um sorvete, e surtar, e rolar pelo chão /////o/

Ps. O desenho ficou torto porque mal consegui desenhar de tanta ansiedade.





sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mulher quadrinista?!

Primeiro, descobri que meu possível avô dos quadrinhos morreu há um tempo atrás. Lá se vai um Cagnin que fez história. Eu até li o livro dele pra escrever meu TCC, mas pior mesmo foi ler na reportagem que falava da morte dele escrito "especialista em desenhos infantis (quadrinhos)", deve estar revirando no túmulo até agora =/

Mas sabe o que cansa a minha beleza? A eterna discussão sobre mercado de quadrinhos, do porque não existirem muitas mulheres quadrinistas, e do público ser predominantemente masculino e bla bla bla... (e vocês devem estar sabendo da fala do Maurício sobre isso) ai... para! E mesmo se for verdade, porque sinceramente não sei quais são as estatísticas reais, as pessoas ficam martelando na mesma questão há séculos como se o mundo não estivesse em constante transformação. E de novo, discutir é um erro. Enquanto se perde tempo nessa papagaiada, eu fico na minha, fazendo o que faço de melhor: criando histórias e desenhando quadrinhos. O que basicamente serve pra tudo na vida, porque vivemos nesse mundo onde se fala demais e se faz de menos.

Não se enganem, não estou querendo atacar ninguém, só que eu fico revoltada. Eu vivo independente de todas essas coisas, de todas as discussões cansativas sobre ser mulher, porque bem, eu sou mulher desde sempre, e desde sempre fiz as coisas que eu faço, e se eu me importasse com o que as pessoas acham, talvez nunca tivesse saído do lugar.

Uma hora nas nossas vidas iremos nos deparar com essas questões, é verdade. Como eu me sinto sendo uma mulher quadrinista? Eu sinto, muitas vezes, como se tivesse nascido para fazer isso, mesmo que em outras o trabalho pareça desolador. Mas todos meus motivos são meus motivos, particulares, assim como todas outras mulheres (homens, pessoas, seres humanos, enfim) tem os seus. Não culpo ninguém, nem mesmo as pessoas que inutilmente fazem essa pergunta, esperando por uma verdade universal, e muito menos culpo as pessoas que fazem a tentativa de responder - assim como eu.

Porque acredito, sinceramente, que a melhor resposta que posso dar nesse momento é mostrar tudo o que eu já fiz, não porque isso significa ser uma mulher quadrinista, mas porque tenho alguma coisa para dizer e uma história pra contar. Talvez eu seja uma vítima do sistema, mas me recuso a ser vítima. Eu vou até o limite. E sim, arrisco dizer que muita gente se revolta nesse instante, assim como eu, porque de repente, não basta ser mulher ou ser quadrinista, é preciso se reafirmar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sugestões para side-stories?

Esses dias eu ando meio surtada. Mas não no mal sentido, muito pelo contrário, ando surtada de ansiedade, de felicidade, ou sei lá mais o que. Acho que agora caiu a ficha, sabe, que coisas MUITO boas podem acontecer de vez em quando. Mas não vou me delongar muito, ainda vou encontrar o momento certo pra explicar melhor o que to querendo dizer (mas vocês sabem que eu adoooooro fazer rolar um suspense, né? =P) só digo que tem a ver com o Vidas, e é tipo, muito, muito legal!

Como tô nessa fase meio textual, estou preferindo escrever side-stories, ao invés de desenhar. Também culpo a falta de tempo e de disposição. Enfim, gostaria de sugestões para próximas histórias, em quais personagens devo investir, etc. Escrevam, ok?

E pra terminar, um desenho que fiz do meu novo casal favorito: Suzana e Pedro do futuro x)



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Side-story da Suzana - parte 2

E aqui vai a segunda e última parte da side-story da Suzana ;)

Leia a primeira parte aqui.


Side-story da Suzana - parte 2


                  -Onde será que os meninos se meteram - ela balbuciou.
                  -O que eu não daria para estar em casa agora, seco.
                  Suzana se sentiu incomodada pela primeira vez por causa das calças molhadas, mas pelo menos estavam molhadas apenas no comprimento e não na bunda. Ela se encolheu e abraçou os joelhos.
                  -Aquilo foi incrível, sabe - Pedro começou - aquilo que você fez no riacho, e depois com o morcego, eu nunca teria tido a coragem...
                  -Acho que foi impulso, nem pensei...
                  -Tu tem um belo instinto de sobrevivência.
                  Suzana deu de ombros, sem se importar muito com seu suposto heroísmo. Pedro se esgueirou no banco e fuçou no porta-malas, voltando com algumas barrinhas de cereal.
                  -Obrigada - agradeceu Suzana.
                  Pedro sorriu, pensando consigo mesmo que nunca seria capaz de se perdoar pelo que fez aquela garota passar. Ela devia odiá-lo até o último fio de cabelo, até o fim do universo e além.
                  -Se eu contasse pra Juno tudo o que aconteceu hoje, ela nunca acreditaria - Suzana começou a falar porque notou que os barulhos vindo de fora eram muito assustadores para se ficar em silêncio.
                  -Ah, nem o Jay - Pedro respirou fundo - Deve ter alguma coisa nesses genes, sei lá, por que eles tem que ser tão... irritantemente populares?
                  -Eles são mesmo bem populares - Ela concordou.
                  Pedro pensou que ele e Suzana eram muito parecidos: ambos eram meio tímidos, meio estranhos, meio anti-sociais, meio melhores amigos das pessoas mais populares do colégio (ou pelo menos o Jay costumava ser, na época deles)
                  -Mas no fundo, são boas pessoas, só meio distraídos.
                  -É! Completamente distraídos. - Suzana concordou, e Pedro percebeu que havia uma mensagem escondida naquela afirmação.
                  -Então... você... já ficou com o Jay? - As palavras saíram falhadas. Ele se lembrava vagamente das conversas de Juno, de ter ouvido alguma vez que Suzana gostava do Jay, ou algo assim, mas ele nunca soube de nada além disso.
                  -Ahm? O que? Não! Claro que não... - ela respondeu, meio confusa, meio envergonhada.
                  -Ah, foi mal... - ele respondeu, se virando pra janela. Não devia ter feito uma pergunta tão pessoal.
                  Mas a verdade era que o silêncio estava os incomodando muito. Eles podiam ouvir animais grunhindo, o vento soprando fazia um barulho assustador, e as árvores envelhecidas rangiam.
                  -É, então, você namora? - Suzana arriscou.
                  -Nem. E você?
                  -Nope.
                  -Eu curto muito o L - Pedro mudou de assunto subitamente, e Suzana levou alguns segundos para entender que ele estava falando do mangá "Death Note".
                  -Ah, sim, ele é um personagem bem maneiro.
                  De repente, Suzana se lembrou que sua bolsa deveria estar em algum lugar jogada no carro, achou-a debaixo do banco da frente, pegou seu celular, que estava sem bateria, afinal.
                  -Droga! - exclamou - Sabe nas histórias de terror, quando as pessoas parecem nunca andar de celular? Agora não me parece tão estúpido...
                  Pedro começou a tamborilar os dedos de nervoso, ou era de fome, então abriu uma latinha de coca-cola que venderia na pedalada, depois oferecendo-a a Suzana.
                  -Sabe o que é mais engraçado? - Ele começou, visivelmente inquieto - Eu sempre te achei gatinha e tudo mais.
                  Suzana ficou fitando-o, sem saber o que dizer.
                  -Quer dizer - ele começou a balançar a perna freneticamente - mas você era a melhor amiga da irmã dele, e você sabe como o Jay era... e ele dizia pro Diego "cara se você encostar na minha irmã eu te mato" e depois completava "e na amiga dela também". E o Jay pode ser muito convincente.
                  Suzana percebeu que os avisos do Jay não tinham nenhum efeito sobre o Diego, no final.
                  -Você é um bom amigo - ela disse, sorrindo.
                  -Ah, por favor - ele se encolheu no canto do carro, deprimido e nervoso.
                  Mas ela continuava sorrindo, o que de certa forma o aliviava. O "eu" de Suzana que Pedro havia conhecido aquela noite era muito diferente do que ele imaginava, mas ele entendia muito bem a situação: as pessoas dificilmente chegavam a conhecer os outros lados que iam além do seu "lado tímido", por isso, às vezes, elas acabavam se surpreendendo, assim como ele havia se surpreendido. Por um momento, ela não era mais a "amiga da Juno", ela era apenas Suzana.
                  Agora qual devia ser a impressão que ela tinha dele? No mínimo que era um covarde, que gritara como uma mocinha enquanto corriam pelo mato, e também que precisou de ajuda para atravessar um riacho inofensivo.
                  -A Juno sempre me zoou por gostar do irmão dela... acho que ela nunca acreditou em mim de verdade.
                  Então era verdade que ela gostava dele.
                  -Então por que, hum... você nunca tentou nada? - Ele perguntou.
                  Ela virou-se para encará-lo, e ele teve sua resposta. Ele sabia qual era razão dela nunca ter falado nada, poque era a mesma razão que também o impedia de tomar alguma iniciativa. Talvez Suzana estivesse tendo aquela mesma leve sensação de como eles eram patéticos em relação aos seus melhores amigos, que pareciam sempre tão brilhantes e decididos.
                  -Quer saber? Eu acho que a gente chutou bundas hoje! - Ele falou, começando a se animar de verdade. Ele se recusava a se sentir deprimido por causa de coisas tão estúpidas - Ou melhor, pelo menos você chutou bundas hoje... - Ele corou.
                  -A gente chutou bundas! - Ela gritou, levantando o braço, como se fosse algum tipo de coro musical.
                  Pedro levantou o braço também, assentindo. Se olharam por um tempo infinito, sorrindo bobamente, como duas crianças que acabaram de ganhar algum campeonato na escola.
                  -Meu, vamos dar o fora daqui - Pedro disse enquanto passava para o banco da frente. Suzana o seguiu e sentou-se no carona.
                  -Como a gente vai ligar o carro? - ela perguntou, finalmente se dando conta de que a situação era crítica de verdade, sozinhos, e perdidos no meio do mato.
                  Pedro bateu as mãos no volante com força, não estavam com as chaves, tinha se esquecido desse detalhe.
                  -Tá, então a gente fica aqui esperando eles voltarem, mas tudo bem, porque estamos seguros dentro do carro - Suzana disse mais como um lembrete para si mesma.
                  -Ai, meu... esse deve ser tipo o rolê mais mancada do universo!
                  -Tudo bem.
                  -Ai, sério, não posso acreditar nissoooo - Pedro disse, quase arrancando os próprios cabelos.
                  -Calma, vai ficar tudo bem.
                  -Meu, o Will me paga, sério. Ele vai me dever favores nessa vida e na próxima, ou simplesmente até o final dos tempos.
                  -Pelo menos, a gente chutou bundas...
                  Nesse momento, alguma coisa bateu na janela de Suzana com força, grunhindo muito alto: GRAAWWWW. Suzana gritou, então pedro gritou, e gritaram por pelo menos um minuto, Suzana cobrindo o rosto com as mãos, desesperada, e então perceberam que era apenas a cara de Bob apoiada no vidro, e agora ele estava rindo.
                  -SEU FILHO DA PUTA! - ela gritou, empurrando a porta para fora com as pernas com toda sua força. Bob caiu no chão, rolando de tanto rir.
                  -Puta merda... vocês deviam ter visto a cara de vocês! - ele disse, dando a volta no carro e abrindo a porta do motorista. Pedro ficou olhando para a cara dele, sem entender, então Bob continuou - Sai fora.
                  Pedro pulou para o banco de trás, dizendo:
                  -Mas a gente não tem a chave...
                  Então Bob balançou a chave na frente deles e colocou na ignição, dando a partida.
                  -Encontrei com Will no meio do caminho, ele disse que tinha encontrado um lugar com sinal bom pro celular, e acho que estava discutindo com os caras da pedalada. Estamos atrasados.
                  Ele deu a ré com tudo, empurrando-os contra o vidro do carro, e então deu meia volta, e seguiu pelo mesmo caminho que vieram a toda velocidade.
                  -Espera aí, e quanto aos outros? - Suzana quis saber dos outros dois dos quais não se lembrava o nome.
                  -Sei lá - Bob respondeu, como se não fosse nada - acho que os vi enterrando o cachorro numa vala bem funda, depois vim direto para o carro.
                  Pedro e Suzana se entreolharam: estavam enterrando o cachorro que estava latindo há apenas alguns instantes atrás? Não sabiam se contavam para Bob que ele estava vivo, porque provavelmente estaria muito ferido e, talvez, prestes a morrer, e isso poderia deixá-lo ainda mais chateado. Decidiram telepaticamente que nunca mais falariam sobre o que havia acontecido com o cachorro ou com o morcego naquele dia.
                  Quando alcançaram a estrada pavimentada novamente, Suzana teve a sensação de que talvez tudo o que havia acontecido fosse apenas um sonho maluco, e que tudo o que tinha pra dar errado, deu, no meio do caminho, mas que tudo bem, porque afinal era só um sonho. Então virou-se para o banco de trás e viu Pedro observando nervosamente o caminho pela janela do carro. Ela não conhecia aquele garoto tão bem, mas sentia que havia um entendimento mútuo e secreto entre eles, algo que não poderia explicar em palavras. Sentiu-se confortada depois de muito tempo, porque mesmo que estivesse sozinha, ela saberia que existia mais alguém nesse mundo que seria minimamente capaz de entende-la.
                  Ouviram uma buzina vinda do carro de trás, que logo estava emparelhado com o carro deles. Eles podiam ver Jay, que estava dirigindo, Will que estava no carona, e os outros dois anônimos que acenavam para eles.
                  Pedro e Suzana se entreolharam, de olhos arregalados, sem conseguir entender direito a sequencia de fatos que levaram a aquele momento. Apenas começaram a rir e não conseguiram parar até chegarem na tal pedalada.
                  O gramado do velho centro de convenções estava abarrotado de gente vestindo roupas colantes e bicicletas de todos os tipos, cores e tamanhos. Pedro carregava algumas caixas até a tenda de bebidas, Jay apenas ria, tomando uma coca-cola, conversando com vários amigos que, segundo ele, havia encontrado na beira da pista pedindo por uma carona, Will, Bob e os dois anônimos, que por sua vez, contaram como encontraram o tal cemitério de animais e que decidiram enterrar o cachorro ali. Talvez houvessem detalhes faltando naquela história, mas isso já não importava. Quando virou para o lado, se surpreendeu em quem encontrou por lá.
                  -Juno?
                  -Suzana! cara, você tá atrasada - Ela parecia alegre demais, talvez bêbada.
                  -Como assim, atrasada? Eu tava te esperando na porta da sua casa, pra gente jogar, lembra?
                  -Mas eu te mandei uma mensagem dizendo que estaria aqui...
                  Juno ficou pensativa por um tempo (longo demais para alguém sóbrio) então tirou o celular do bolso, sacudiu-o um pouco e então disse:
                  - Droga, acho que pifou. Esquece, parece que vai rolar uma festa. Cara, você não acredita em quem encontrei aqui... sério... aconteceu tanta coisa que nem sei por onde começar a contar - então ela parou e se virou para Suzana - Mas cara, o que aconteceu com a sua calça?
                  Suzana riu pensando consigo mesma que sua amiga não tinha jeito mesmo.
                  -Me conta o que aconteceu vai, Juno... nos mínimos detalhes, por favor.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Side-story da Suzana - parte 1

Bom, eu decidi fazer algo diferente nesta side-story que foi tipo escrever uma mini aventura. Eu sei que não costumo escrever aventuras, mistério e tal, mas eu gostei porque a Suzana foi uma personagem com muito potencial e pouco explorada da trama principal do Vidas. Então essa é para os fãs de Suzana e Pedro! ;D

Ah, eu vou dividir em 2 partes porque ficou realmente longo xD




Side-story da Suzana - Parte 1

          Suzana estava sentada nos degraus na frente da casa de sua melhor amiga, lendo um mangá que sempre carregava na bolsa, quando sentiu uma sombra se aproximando dela. A sombra disse “hey” antes mesmo que ela levantasse a cabeça para ver quem era.
          -Ah, oi Pedro.
          -E aí, tudo certo? O que você tá lendo aí?
          -É um mangá – ela levantou o exemplar pra que ele visse a capa, onde estava escrito “death note” – é tipo um desenho japonês – ela disse, para se certificar de que ele entenderia.
          -Tô ligado, em que parte você está? – ele perguntou, o que a surpreendeu, porque nunca achava que as pessoas gostassem de ler mangá.
          -Hum, ninguém descobriu ainda quem ele é.
          -Cara, a história fica muito boa, até ficar muito chata e enrolada, mas é um mangá muito bacana, você vai gostar. Hey, você sabe se o Jay tá aí?
          -Não sei, a Juno falou pra eu encontrar com ela pra gente jogar um pouquinho, mas ela não tava em casa. Ela não tava em casa, e me chama pra jogar na casa dela, sério. Então eu tô aqui esperando ela chegar – Suzana sempre se surpreendia em quanta coisa inútil ela podia dizer quando estava meio nervosa.
          -Pode crer – ele respondeu – e se eu tivesse um Death Note agora, escreveria o nome do Jay. A gente combinou de ensaiar hoje cedo, mas ele nunca apareceu. Eu não sei o que acontece com essa família.
          Suzana observou enquanto Pedro pegava o celular, discava um número e colocava o celular perto do rosto, e alguns minutos depois, desligando-o e o colocando no bolso de novo.
          -Ele não responde, caramba. Que horas será que ele voltou da festa ontem?
          -As vezes, ele nem voltou da festa – Suzana sugeriu.
          Pedro a olhou como se fosse a garota mais inteligente do planeta.
          -Mas é claro, vou tentar ligar para algumas amigas dele!
          Suzana voltou a sua leitura, mas alguns segundos depois, Pedro sentou-se ao seu lado.
          -Ai, desisto. Tá bom, não era pra gente ensaiar hoje.
          -E o Diego?
          -Ele apareceu lá, mas depois disse que tinha alguma coisa mais importante pra fazer, vai ver ele tinha hora marcada no salão para fazer as unhas.
          Suzana riu, mas na verdade Pedro estava um pouco desconsolado.
          -É que cara, você está no último ano, está sussa... imagine se formar e não ter ideia do que fazer, poxa, hoje eu só queria ensaiar e fingir que tava tudo de boa.
          -O Jay tá indo pra faculdade, né... e a Juno também, no ano que vem.
          -Putz, e ela terminou mesmo com aquele carinha?
          -É, terminou, e mudou de escola.
          De repente, ouviram uma buzina, e perceberam que havia um carro estacionado alí na frente. O carona abaixou o vidro do carro, e Suzana só conseguiu ver um cara encapuzado e com cara de mal encarado:
          -Chega aí, cara.
          -E aí!
          E então, Pedro levantou e foi até ele. Ele parecia conhecer os caras. Ela não conseguiu ouvir o que eles estavam falando, só reconheceu algumas palavras mas nada que fizesse muito sentido. Começou a se aborrecer por Juno ser tão relapsa com ela às vezes, como fazê-la ficar esperando por ela na porta de sua casa.
Então Pedro virou-se pra ela:
          -Su, eu acho que descobri onde está o Jay, quer dizer, é muito provável que ele esteja lá, mas de qualquer forma, estou devendo um favor pro pessoal, então vou indo nessa. Você vai ficar por aí mesmo?
          -Eu acho que sim, quer dizer, não sei quando a Juno vai chegar...
          -Juno? – falou um dos caras de dentro do carro – ela tá lá também, vem com a gente.
          O radar Suzana para rolês muito errados começou a apitar, mas ela ignorou, quer dizer, qualquer coisa deveria ser melhor do que ficar esperando plantada ali naquela escadinha, não é? No fundo, estava chateada. Juno havia mudado de escola sem piedade, como se fosse a coisa mais simples do universo deixar seus amigos para trás. Ela poderia ter ficado lá mais um ano, até se formar, mas não... Agora se viam muito raramente, e quando se viam, era assim, meio que na sorte. Suzana correu até o carro, já guardando o mangá na bolsa.
          -Vocês tem certeza de que era ela? Uma garota bem alta, cabelo castanho, que dá um pouco de medo de olhar diretamente nos olhos?
          -Sim, claro! É ela mesmo – eles responderam, meio rindo, meio sérios.
          Suzana e Pedro se entreolharam e balançaram os ombros, afinal, o que poderia dar errado? Os dois se espremeram no banco de trás, que diviram com mais dois caras estranhos. Tinha um de boné, o Bob, que Suzana reconheceu de algum lugar, e o motorista que usava rastafari e falava um pouco devagar demais, meio hippie, sei lá. Não conseguiu gravar nem o nome nem a fisionomia dos outros dois, mas julgou que não seria assim tão importante.
          -Pois é cara, maior loucura ontem, foi uma festa das boas, saca. Falei com o Jay e tal, mas o cara sumiu – era o motorista falando – e acho que ele levou meus beck, porque nunca mais encontrei – então ele riu, como se tudo aquilo fosse muito normal.
          Suzana estava um pouco apreensiva, pra não dizer que estava muito assustada. Aqueles caras não pareciam ser perigosos nem nada, mas o motorista usava drogas, então como podia confiar que sairia viva até o final daquela carona?
          -Gente, para onde estamos indo mesmo? – Ela perguntou, sem reconhecer o bairro a sua volta.
          -Relaxa, a gente tá indo pro antigo centro de convenções.
          Ela pensou um pouco.
          -O antigo centro de convenções... que fica na divisa da cidade e que foi desabilitado por ser contruído numa área pantanosa?
          -Putz, esse mesmo, mas não sabia que era uma área pantanosa, que louco!
          Suzana quis abrir a porta do carro e sair rolando pela pista, como se faz nos filmes de ação, mas concluiu que não seria nada sensato.
          -E por que a gente tá indo pra lá mesmo?
          -Olha, parece que tá rolando uma coisa, um evento, sei lá, e o Will pediu pra eu ajudar a carregar umas caixas e a vender as bebidas, algo assim – disse Pedro.
          -Ah... – ela respondeu, checando seu celular, e rezando para a bateria durar por tempo suficiente – então vocês tipo, organizam eventos?
          -Tipo isso, cara. Hoje vai rolar uma mega pedalada. Cicloativistas, manja?
          Suzana estava começando a se irritar com o jeito que esse tal de Will falava, ou apenas estivesse ficando nervosa, se perguntando porque teria entrado no carro de um desconhecido, por que diabos faria isso, por que?
          -Calma, Su... a gente te leva pra casa mais tarde, ok? – Pedro tentou confortá-la.
          “Ai meu Deus onde estão me levando hoje que eu morro que que eu fiz pra merecer isso calma suzana vai ficar tudo bem é só uma pedalada um bando de pessoas que gostam de andar de bicicleta e quando se der conta vai estar na sua casa sã e salva MEU DEUS CUIDADO COM O CACHORRO”
          Quando se deu conta, havia gritado a ultima frase ao mesmo tempo em que o Will atropelava o que parecia ser um cachorro, que agora estava estatelado no meio da pista.
          -Cara, eu não acredito que a gente atropelou um cachorro, Will eu vou te matar – este era o Bob, que saiu do carro e caminhou até o animal – Puta que pariu, Will, você atropelou E matou um cachorro.
          -Fica aqui, tá bom – Pedrou falou pra Suzana – não fica olhando, eu vou lá ver qual a situação.
          Foi então que Suzana reparou no rastro de sangue que tinha no chão e decidiu virar-se e esconder a cabeça entre os joelhos.
          -Ai Deus, por que fui sair de casa hoje? Eu poderia ter ficado lendo meus mangás, mas não, hoje a vida decidiu conspirar contra mim.
          -Relaxa, Suzaninha – a voz suave de Will fazia seu cérebro explodir, como se ele não tivesse acabado de matar um ser vivo!
          -Cara, a gente precisa tirar o cachorro do meio da pista, sabe, senão pode ser periogoso e tal – disse Pedro enfiando a cabeça pela janela do carro.
          -Cara, não! A gente tem que enterrar ele. Ele pode ser o cachorro de alguém! Se meu cachorro morresse por algum infeliz desgraçado que atropelou ele no meio da estrada, eu gostaria que ao menos fosse enterrado – Bob estava visivelmente chateado com o ocorrido e lançou um olhar furioso a Will.
          -Putz, cara, já é... enrola o bixo nesse tapetinho aqui que a gente arranja um lugar daora pra enterrar ele.
          -Peraí! – Suzana interviu – vocês estão dizendo que vão levar um cachorro morto no carro?
          -No porta-malas – Bob respondeu.
          -Ou seja, no carro.
          -Ah, para de ser mulherzinha.
          Dez minutos depois, Suzana estava viajando com um cachorro atropelado nas suas costas e tinha quase certeza que o pelo do rabo dele fazia cócegas na sua nuca, mas talvez fosse só impressão.
          -Uma vez eu tive um cachorro, mas ele morreu de câncer – disse um dos caras que Suzana não se lembrava o nome.
          -Que triste, meu – disse o segundo cara anônimo.
          -Eu sei que por aqui tem tipo um lugar, um cemitério de animais, acho que a gente podia enterrar ele lá.
          -Pode crer, eu lembro desse lugar, eu acho que fica nessa direção – disse Will enquanto girava o carro noventa graus à direita e entrava no meio da vegetação. Suzana sentiu seu coração subir até a boca.
          -Gente, isso aqui não tem cara de rua, de estrada, de trilha, nem nada. Vocês sabem que a gente tá no meio do mato?
          -Suzaninha, confia em mim – Will sorriu pelo retrovisor. Ela teve a sensação de que estava sendo enganada esse tempo todo, e que eles nem sabiam quem era a Juno, e só tinham inventado que conheciam ela a fim de arrastá-la para uma armadilha.
          -Pedro, eles estão tentando matar a gente? Me diz agora ou nunca, por favor – ela sussurrou para o garoto, que nem era assim tão seu amigo.
          Ele riu e afagou as próprias pernas, um pouco nervoso, o que fez Suzana querer chorar de desespero.
          -Eu acho que é por alí – disse Will apontando para algum lugar a sua direita e um segundo depois gritou um WOAH e freou o carro com tudo.
          -Puta que pariu, Will! Não basta matar um cachorro, você ainda quer matar todo mundo?
          Todos perceberam a vala enorme que havia na frente deles, e por centímetros eles não ficaram entalados alí, e então, teriam morrido ali, no meio do nada, de denutrição ou então comendo uns aos outros por causa do desespero, pensou Suzana.
          -Na melhor das hipóteses, já temos um túmulo para o cãozinho – Suzana disse, na esperança de que todos concordassem com a ideia, mas foi confrontada com o olhar terrível de Bob, o super amigo dos animais. Não, tudo bem. Suzana também amava os animais, mas ela amava ainda mais a própria vida.
          -Ah, foda-se, agora a gente vai andando - Bob saiu do carro e abriu o porta-malas, e depois ouviram o barulho de algo caindo – ai caralho, deixei ele cair.
          Todos correram pra fora para ajudá-lo. Suzana não conseguia parar de pensar em como eles eram idiotas. Ela saiu do carro e viu dois deles tentando enrolar o cachorro de volta, mas hora uma pata ficava pra fora, hora a cabeça.
          -Puuuutz - gemeu o anônimo numero um - meu tênis novo...
          -Puta merda, é só um pouquinho de sangue! - gritou Bob, que ficou tão nervoso que pegou o cachorro de qualquer jeito no colo, se sujando inteiro.
          -Mas é da Nike...
          Suzana podia ver a cabeça do cachorro preto pendendo para fora do embrulho, com a lingua pra fora, balançando enquanto Bob caminhava por entre as raízes de árvore no chão, e aquilo a incomodou de verdade, mas não queria ficar sozinha no carro então os acompanhou pra onde quer que fossem.
          Andaram por cerca de vinte minutos, até que Bob, já muito desconfortável com o peso, largou o embrulho no chão e disse:
          -Preciso mijar.
          Ele andou além de umas árvores até que não podia ser mais visto, os dois anônimos andaram em direções opostas, aproveitando a pausa para se aliviarem também. Pedro e Suzana se entreolharam.
          -Não me deixe aqui sozinha, por favor - ela pediu, e ele percebeu o terror escondido em sua voz - tá começando a escurecer...
          Pedro tirou a jaqueta e colocou no chão para que pudessem se sentar sem sujar a roupa. Ficaram sentados por pelo menos dez minutos, Suzana com o olhar fixo sobre o cachorro.
          -Não acredito em como tudo isso deu errado de forma astronômica - ela falou.
          -Não sei nem como me desculpar por ter te arrastado para esse rolê... - ele parecia realmente arrependido - eu deixo você me bater, se quiser. Pode bater com força - ele deu uns tapinhas no rosto, oferecendo a face.
          Ela apenas fez que não com a cabeça, ainda fitando hipnoticamente o ser ensanguentado estendido a sua frente.
          -Caramba, onde será que eles se meteram? - Pedro procurou por eles a sua volta, mas não ouvia mais nada além de suas respirações.
          -Pedro, você viu isso?
          -Isso o que?
          Suzana apontou para o cachorro.
          -Pedro, eu juro que vi o olho dele se mexer, aimeudeus.
          -Não é possível, ele tava morto quando a gente chegou lá na pista...
          Então pedro percebeu que uma parte do tapete que o encobria se mexeu ligeiramente, e quando focou na cabeça, ele viu: o olho se mexeu e agora os fitava.
          -Ele tava quão morto??? - ela gritou, a voz ficando fina.
          Então o cachorro deu um latido e seu corpo se contorceu, livrando-se do tapete, e ficando em pé. Só podiam ver o branco de seus dentes, rosnando para eles.
          -PUTA MERDA VAMO CAIR FORA DAQUI - Pedro gritou, pegando Suzana pelo braço.
          Só tiveram tempo de se levantar e sair correndo com um latido que ficava cada vez mais evidente. Tiveram a impressão de que o cachorro os estava seguindo, porque latia cada vez mais alto e com mais ferocidade. Correram por entre as árvores, tropeçando em galhos e raízes de árvores, quase às cegas. Quando chegaram a um riacho, tiveram certeza de que estavam indo na direção errada e estavam completamente perdidos, porque não haviam passado por nenhum riacho na ida. Pedro parou bem na borda, e viu um vulto passar ao seu lado: era Suzana que havia se jogado e agora estava dentro da água, que ia até as coxas.
          -Vamos, não é fundo! - ela gritou, estendendo a mão. Ainda podiam ouvir os latidos, mesmo que distantes, mas isso foi o suficiente para que ele pulasse.
          Andaram até o outro lado, e continuaram correndo, agora de mãos dadas, com Suzana tomando a frente.
          -Eu acho que... acho que reconheço esse lugar - ela disse, olhando a sua volta, já não corriam, apenas andavam rápido - acho que é por alí!
          Alguma coisa voou na direção deles, atrapalhando a sua visão, Suzana apenas teve o reflexo de dar um tapão naquela criatura, fazendo ela cair no chão alguns metros a frente deles, se contorcendo um pouco, então ela foi até ele e pisou em cima algumas vezes, fazendo-o parar de se mexer.
          -Cara, eu acho que você acabou de matar um morcego - Pedro constatou, meio surpreso, ainda sendo puxado por Suzana pelas mãos - é sério, morcegos também são criaturas de Deus, e você acabou de matar um deles - ele disse, brincando.
          -Pedro - ela parou e estendeu o indicador na direção dele - aquele cachorro lá não era criatura de Deus, não! E para todos os efeitos, o morcego era letal e estava prestes a nos matar.
          Pedro apenas riu nervosamente e a seguiu. Encontraram o carro depois de alguns minutos e entraram correndo no banco de trás. Bateram a porta com força e a trancaram, a respiração a mil, e a sensação latente do coração que chegava até a boca do estômago.
Suzana só percebeu depois os arranhões nos braços e pernas. Pedro a pegou pelas mãos e a averiguou cuidadosamente.
          -Você se machucou em algum lugar?
          Ela fez que não com a cabeça, mas respirou fundo para tentar se acalmar.
          -O que diabos foi tudo isso? -perguntou.
          -Eu não sei, o Bob tinha dito que o cachorro estava morto, mas pensando bem, não vi ele checando a respiração nem nada... - Pedro estava pensativo, revendo a cena em seus pensamentos - afe, como somos idiotas! Ele nem devia estar morto, ainda bem que não enterramos ele, jesus...
          Suzana afundou no banco e olhou pela janela. Já estava tão escuro entre as árvores que não podia enxergar quase nada além de uns dez metros.

             Continua!!! 


Leia a segunda parte aqui.




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Uma side-story da Amanda II

Senti uma vontade de escrever e aproveitei pra escrever mais uma side-story baseada no universo do Vidas. Como sei que um pessoal curtiu muito a personagem Amanda, que é irmã do Daniel, decidi escrever mais sobre ela, sobre um outro lado dela. Espero que gostem!! Mesmo quem não leu toda a história pode entender esse trechinho =)



              Uma side-story da Amanda II


          -Não entendo porque você começa a comer pela sobremesa - começou o garoto, a estranhando.
          -Qual o problema? - ela pergunta, fitando-o impassível.
          -Nenhum problema, só acho estranho - ele volta a remexer na própria comida, um pouco desinteressado.
          A garota larga os talheres ao lado do prato, pronta para confrontá-lo.
          -Sabe, quem é que inventou que preciso comer a comida e só depois a sobremesa? Por que não posso comer a sobremesa antes?
          -Não sei, mas não é o que faz sentido? Você come o salgado, aí então sente vontade de comer algo doce. Não acho que esse padrão seja aleatório, as pessoas fazem isso porque, sei lá, alguém notou que nosso corpo funciona dessa forma. Além disso - ele começou a se cansar - eu já vi isso em algum filme, não é nada original.
          Amanda voltou a comer sua sobremesa, como se nada tivesse acontecido.
          -Você ficou brava? - Pela primeira vez, o garoto se deu conta que talvez a tivesse chateado, e que não era isso o que ele queria. Ele gostava dela, e por isso a havia convidado para sair.
          Ela fez que não com a cabeça, com uma expressão que dizia "claro que não, olha pra minha cara de que se importa com o que você acha". Ele não sabia que uma expressão podia dizer tantas coisas ao mesmo tempo, mas essa era Amanda.
          -Eu gostei do que você fez com o cabelo, quer dizer eu gosto de você loira, mas preto ficou legal, te deixou com uma cara mais... dark... ah, você sabe.
          Amanda o olhou de canto de olho, o que o fez se sentir muito idiota.
          -Então, você acha que eu sou uma criatura estranha e por isso me chamou para sair, ou o que?
          -Não! Não tem nada a ver...
          -Você achou que seria legal sair com uma garota estranha? Tipo, uma história pra contar pros seus filhos depois? Uma vantagem para você em relação aos seus amigos?
          -Jesus, Amanda! Não, não é nada disso - ele disse, sem fôlego - você é realmente agressiva, não precisava de tudo isso.
          -Eu conheço muito bem caras como você.
          Então, ele começou a entender.
          -Você saiu com muitos caras que só queriam te usar?
         Ela não respondeu, ficou em silêncio arrastando os restos de sobremesa de um lado a outro do prato.
         -Olha - ele começou, confiante - pra sua informação eu nem ao menos sou popular, não tenho porque ficar contando vantagem pros meus amigos e outra, eu achei que você era interessante. Só isso. Eu preciso de outra razão pra chamar uma garota pra sair?
         Ela levantou os ombros, como se dissesse que tanto faz.
         -Esse seu lado passivo-agressivo até que é uma graça... - ele sussurrou, quase como para si mesmo - Então, por que você decidiu sair comigo?
         Amanda respirou fundo e fitou a rua através da janela ao seu lado.
         -Não sei, eu queria provar alguma coisa pra mim mesma.
         -Provar? - ele perguntou confuso - Provar o que exatamente?
         Ela virou-se para ele, finalmente, fitando-o nos olhos, e então sorriu.
         -Deixa pra lá, é besteira minha.
         Pela primeira vez, ele ficou realmente preocupado com ela. Amanda era o tipo de garota que gostava de ficar sozinha, muitas vezes a encontrava escrevendo sentada nas escadas da escola. Depois de um tempo, ela começou a andar com uma turma de góticos, desses que iam para o cemitério a noite, se vestiam de preto e usavam meias nos braços. Eles eram pessoas curiosas, mas ele não se interessava particularmente por eles. Ele achava que Amanda era estilosa de um jeito totalmente único e inspirador. Até mesmo esse jeito irreverente de quem acha que sabe tudo era um pouco encantador. Um pouco.
         Depois de um tempo, chegou a panqueca que ela havia pedido no lugar do que seria a sua sobremesa, e ele recebeu um pratinho com cheesecake.
         -E agora, quer fazer o que? - Ele perguntou, quando percebeu que ela já tinha acabado de comer.
         -Sei lá, tanto faz.
         -Pra alguém que sabe exatamente o que quer, você não sabe de nada.
         Ela riu.
         -Cinema então - ela sugeriu.
         -Conheço um lugar mais interessante, acho que você vai gostar.
         Amanda lançou-lhe um olhar de suspeita, mas acabou seguindo-o. Ele parou diante de uma moto e colocou um capacete nos braços dela, era rosa e tinha alguns adesivos grudados.
         -Peraí, você tem uma moto? Você dirige uma moto? Você tem uma habilitacão pra andar nisso aí, peraí, quantos anos você tem?
         Eram tantas perguntas que ele riu.
         -Calma, eu já tenho dezoito, é que eu repeti um ano no colégio.
         -Ah... - ela respondeu, colocando o capacete e pensando numa maneira de se apoiar na moto, mas não teve jeito, ela teve que se agarrar ao corpo dele e se segurar em sua cintura.
         -Esse lugar.. é muito longe?
         -Não muito - ele respondeu, dando a partida.
         Amanda não queria admitir mas a proximidade a incomodava. Ela era do tipo de pessoa que não costumava ser tocada, e nem tocava outras pessoas, então qualquer tipo de contato a deixava nervosa, como se fosse algo megaimportante, mesmo não sendo, em praticamente noventa por cento dos casos. Mas ela não sabia em qual porcentagem aquela proximidade estava inserida. Ela ficou com os braços rigidos em volta do corpo dele, e podia sentir o cheiro de shampoo do cabelo dele, que ficava batendo em seu rosto com o vento - era um cheiro neutro, levemente cítrico. Ele parecia não usar perfume, ou talvez fosse uma colônia bem leve, ou só desodorante, mas a pele do pescoço dele tinha aquele cheiro de pele, um cheiro de ser humano bastante atrativo...
         -Feche os olhos. - ele disse, tirando-a do transe.
         -O que?
         -Quero fazer surpresa. Se você souber para onde estamos indo, vai perder toda a graça.
         -Hey, você é tipo um assassino em série ou algo assim?
         -Se eu fosse, eu não lhe diria, é claro.
         -Posso dizer minhas últimas palavras?
         -Cala a boca e feche os olhos - ele mandou, e aquelas palavras a fizeram obedece-lo imediatamente. Ela sentiu uma ansiosidade, uma coisa que vinha do seu âmago, que revirou seu estômago, mas não sabia dizer o que era... talvez fosse a adrenalina de andar a oitenta por hora na rodovia, de olhos fechados, na garupa da moto de um cara que nem ao menos conhecia direito, completamente vulnerável, sem saber para onde estava sendo levada. E o pior de tudo, ela começou a gostar dessa sensação.
         Depois de aproximadamente sete minutos (ou quem sabe uma eternidade, amanda não sabia dizer) ele parou a moto e desceu, falando:
         -Não abra os olhos até eu dizer que pode, ok?
         -Ok... - a voz dela saiu trêmula.
         Ele a guiu pelas mãos por um terreno acidentado, parecido com pedregulhos. Talvez fosse o estacionamento de algum lugar.
         -É sério, essa brincadeira está perdendo a graça...
         -Aguenta mais um pouco, vai... acho que você vai gostar da surpresa.
         Andaram cerca de cem metros até que ele parou. Amanda ouvia barulho de engrenagens e pessoas gritando.
         -Tá certo, pode abrir agora.
         Ela abriu os olhos devagar, tentando se acostumar com os brilhos de alguma luz muito forte. Quando finalmente se deu conta da onde estava, não sabia direito o que sentir.
         -Magic City... - ela sussurrou - como você sabia...
         -Eu descobri com meus talentos de stalker, claro - ele respondeu, muito orgulhoso de si mesmo.
         -Como você possivelmente sabia sobre esse parque? Pouca gente sabe sobre ele... é só um parque de diversões fuleiro...
         -... que seu pai costumava te levar quando era criança? - ele completou - Eu leio seu blog.
         -Ai, sério, não acredito que você lê aquela porcaria - ela disse meio emocionada, meio surpresa, meio indignada, tudo ao mesmo tempo.
         -Bom, acho que a gente deveria ir ao menos no barco Viking, já que estamos aqui.
         -Ah, por favor - ela começou, como se estivesse muito velha para ir nos brinquedos - No barco Viking não - ela completou, com um certo terror na voz.
         -Peraí, você está com medinho?
         -Eu só não gosto desse brinquedo.
         -Ah, agora é que nós vamos! - ele a agarrou pela mão e a arrastou até a fila, que estava bem pequena. Pensando bem, aquele parque era bem vagabundo.
         Quando estavam devidamente sentados no barco Viking, Amanda começando a ficar branca, agarrando as barras de segurança como se fizesse parte do barco, disse:
         -Se eu vomitar em cima de você, não diga que não avisei.
         O barco começou a balançar, e ela gritava "ai não ai não não por favor não ai deus" e ela estava tão engraçada que ele se divertiu mais com sua reacão do que com o barco.
         Depois de um tempo, Amanda sentiu os braços começarem a formigar, e já não sentia mais medo, com seu corpo todo dormente, e aquele garoto ao seu lado ria tão descontroladamente, que ela quis rir também, e pela primeira vez sentiu que ele se importava com ela, nem que fosse só um pouquinho, e que talvez aquela tivesse sido a coisa mais adoravelmente romântica e sem noção (e brega) que alguém já havia feito por ela.
         E então ela riu também e colocou os braços pro alto, assim como ele, e aproveitou o resto da brincadeira como se mais nada existisse a não ser aquele momento.
         Até o final da noite, já tinham ido em todos os brinquedos pelo menos três vezes, até que estavam começando a ficar cansados e com a leve snesação de terem deslocado algum órgão interno. Enquanto caminhavam por um corredor de barracas de comida, ele pegou a mão dela, subidamente.
         -Cara... - ela disse meio atordoada - por que está fazendo isso?
         -Segurando sua mão? - Ele perguntou, confuso.
         -Não, tudo isso. O jantar, o parque... por que ir tão longe quanto ler meu blog?
         -Porque eu ligo?! Faço isso porque eu me importo com você, as pessoas se importam às vezes, sabe, Amanda.
         -Quer dizer... não tem nada de interessante sobre mim...
         -Ai, por favor, chega disso. Eu decidi fazer algo legal por você, será que dá pra aceitar sem ficar buscando por razões?
         -Quer dizer - ela continuou seu monólogo, como se ele não tivesse dito nada - eu sou a garota que come a sobremesa primeiro, e você é o cara que segue o padrão porque o padrão é bom pra você.
         -E daí? - ele estava se cansando.
         -Sei lá, você não acha que a gente não tem nada a ver?
         -Eu acho que você não sabe muito sobre mim.
         E bem, Amanda sabia que era verdade, afinal, o que ela sabia sobre ele...? Só que ele tinha repetido uma série da escola, mesmo parecendo ser um cara super centrado e sério. Talvez ele tivesse ficado doente e não conseguira recuperar o ano...
         -Felipe, desculpa, eu tenho me comportado como uma vadia essa noite.
         Ele riu.
         -Não, não... não como uma vadia. Como uma filha da mãe ingrata e sem coração, talvez. Mas agora vejo que minha condição passou de "criatura desprezível que só quer me usar" para "ser humano", já que você me chamou pelo nome, então me sinto mais reconfortado.
         -E se eu fizer algo por você? Para me desculpar por ser uma filha da mãe ingrata e sem coração?
         -Hum, feito - ele concordou - mas fazer tipo o que?
         Amanda rondou o parque com os olhos e teve uma ideia. Apontou para a máquina de fotos instantâneas.
         -Já sei, vou ali naquela máquina e tiro umas fotos com a camiseta levantada, e você pode ficar com elas.
         -Você tá falando sério?
         -Ué, tô.
         Então ela caminhou até a máquina e saiu alguns minutos depois, foi até Felipe e colocou as fotos no bolso da sua jaqueta.
         -Sério, se você me enganou, e eu chegar em casa, e não forem fotos sua seminua... - ele falou, meio brincando, meio sério.
         -Olha, Felipe, eu posso até ser uma filha da mãe, mas eu cumpro minhas promessas.
         -Cara... eu acho que tipo, você acabou de subir no meu conceito.
         -Só porque as garotas simplesmente não saem mostrando seus peitos por aí?
         Felipe virou-se e ficou fitando-a tentando encontrar alguma coisa que a explicasse, que explicasse seu comportamento mais cedo, tão fechado, como se existisse um muro entre eles, e então, de repente, lá estava lela, sendo incrível e tudo mais.
         -É, você tipo, deve ter virado minha heroína, ou algo assim.
         -Quando começo a ser eu mesma que começo a me arrepender - ela disse baixinho, como para lembrar a si mesma de algo importante.
         -Hey, o que foi isso? - ele parou e a virou, segurando-a pelo braço.
         -É só que... quando decidi sair com você, eu queria provar pra mim mesma que podia fazer isso sem me arrepender profundamente depois... quem sabe se eu fosse, sei lá, forte o suficiente. Mas você foi legal comigo, é verdade, mais legal do que qualquer outro cara, e você é pelo menos decente... - e aquela ultima palavras fez Felipe se sentir mais que um mero ser humano na escala Amanda, e talvez ela tivesse saído com mais caras idiotas do que ele imaginara.
         Eles ficaram em silêncio, contemplando o parque que agora estava ficando vazio e começando a mostrar seu lado, digamos, deprimente. O barco Viking foi o primeiro a ter suas luzes desligadas e assim que o chapéu mexicano desligou, Felipe falou de súbito:
         -Quer saber, acho que a gente devia tentar dar uma última volta na Roda Gigante.
Antes que Amanda pudesse responder, estava sendo arrastada pelo parque, comprando as ultimas entradas pra roda gigante (contra todos os avisos do funcionário que dizia que estavam fechando), passando pela catraca, e enfim, sentando naquele banco azul desgastado.
         -Então você é esse tipo de cara... - ela disse baixinho.
         -Primeiro, eu não sou tipo de cara nenhum, segundo, de que tipo você está falando?
         -Que faz coisas incrivelmente perfeitas, no momento perfeito, e que acaba um encontro com uma última volta na Roda-Gogante... Quer dizer, o que pode ser mais romântico que isso?
         Felipe ficou fitando a paisagem através da janelinha, observou enquanto se afastavam do chão e então voltavam novamente, dando uma volta perfeita no universo, ou apenas no universo reduzido que existia entre eles.
         -Ou a gente pode parar de pensar sobre a perfeição ou não perfeição desse momento e apenas... aproveitá-lo.
         Felipe sabia que não havia nada de perfeito no que havia feito, havia talvez um pouco de planejamento, afinal, ele havia pesquisado coisas sobre elas a fim de surpreendê-la, mas ele fez isso pelo simples motivo de querer fazer algo legal. Todo o resto era mera improvisação. Ela poderia ter odiado, mas talvez houvesse gostado.
         Amanda decidiu acompanhá-lo na sua observação do universo. lembrou-se da mesma cena, na sua infância, em que costumava andar de roda gigante com seu pai, mas ao contrário de Felipe, ele parecia estar lá sempre por obrigação, como uma forma de se sentir menos culpado por nunca ter tempo para ela, e estar sempre fora, viajando a trabalho. Estar com Felipe alí, naquele momento, pareceu estranhamente confortável.
         -Felipe, será que a gente pode sair de novo qualquer dia desses?
         Ele sorriu o sorriso mais adorável do universo (do universo deles).
         -Só se eu puder comer a sobremesa primeiro.

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